Faltava um dia para eu ir embora, para eu ir para faculdade onde eu iria passar os próximos meses até o verão. Para uma nova fase da minha vida começar.

Eu estava muito ansiosa, e também muito nervosa, nunca havia ficado longe da minha família tanto tempo. E estava indo pra faculdade, agora sim tudo o que restava de inocente e infantil em mim estava indo embora e deixando espaço para a responsabilidade. Mas tinha um lugar que eu precisava ir antes de partir. O lugar que mais me ajudou na escola, e principalmente a entrar numa das melhores faculdades do país. A biblioteca. 

Estava vazia como sempre, eu passei por muito tempo naquele lugar, horas e horas estudando, ou até mesmo lendo só para me distrair um pouco. O meu livro favorito é Romeu e Julieta. Acho que é porque sempre fui apaixonada por teatro. E apaixonada pelo garoto do teatro, apesar de nem saber o nome dele. Fui pra sessão de livros teatrais, exatamente aonde sempre ficava o “meu” livro, mas ele não estava lá. Como assim não estava lá? Tem dezenas dele naquela biblioteca. Ah sim, o teatro da cidade deve ter pego emprestado. Mas eles não podiam levar todos, sempre sobrava alguns para que alguém pudesse ler, para eu poder ler. Eu procurei pela biblioteca inteira, e achei. Na sessão errada, ao lado do “Querido John”. 

– Quem foi o idiota que pegou meu livro e não colocou no lugar?
– Eu. – ouvi uma voz atrás de mim.
Me virei rapidamente, preparada para iniciar uma discussão, que foi interrompida antes mesmo de começar. Aqueles olhos azuis. Eu conhecia. 
– Então o garoto do teatro pegou o meu livro e não colocou no lugar? 
– O livro é propriedade do governo, não sua. 
Um ficou encarando o outro por uns 5 segundos e depois rimos. 
– E aí, fiquei sabendo que você ta indo pra faculdade amanhã. – Uau, ele tentou puxar assunto comigo.
– É sim, vai ser difícil ficar longe daqui, vim para me despedir. Pena que não pude participar da peça junto com vocês esse ano, seria uma despedida ótima. 
Ele fez uma cara como quem estivesse tendo uma ideia:
– Ok, vamos ter uma despedida sua então. Gosta de sorvete? 
Fiquei com um olhar de desconfiada. 
– Gosto. Mas espera, qual é o seu nome? 
– Hm, não vai ser bom nos apegarmos logo no ultimo dia de convivência. – Ele pegou o livro “Querido John” – Me chame de John. – E sorriu. 
– Que sabor de sorvete você gosta John? – peguei o meu livro – Me chame de Julieta. 
– Chocolate. 

John pegou os dois livros (Romeu e Julieta e Querido John) e disse para a bibliotecária que iria devolver depois. Fomos no parque, tomamos sorvete, conversamos um pouco sobre os livros, mas nada de falar sobre nossa vida. Ele só sabia qual era meu livro preferido, e que amanhã eu estava indo pra faculdade. Eu só sabia que ele era fanático pelo livro Querido John. Sabe todas as letras, todas as falas, e todos os beijos. E sempre repetia “quero um amor como o de John e Savannah”. Eu nunca li esse livro. Mas ele me falou tanto dele, contou tanto, que é como se eu já tivesse lido e relido várias vezes. A história até que é bonita mesmo. Apesar dos apesares, de certa forma, estão juntos no final.

A minha conversa com John rendeu horas, depois fomos para o teatro abandonado, e ficamos tentando encenar por um tempo. Mas a gente brigava a casa 5 segundos sobre qual dos livros iriamos encenar, e acabávamos rindo. A gente decidiu então misturar as duas histórias, no que deu um fim trágico e podre, porque a “Julieta” tomava o veneno e o “John” não. Nossa história se chamava John e Julieta. O nome dos nossos personagens favoritos, e o nome fictício para nós. No fim da tarde fomos ao Starbucks, tomar chocolate quente, e encerrar nosso dia. Prometemos um ao outro não nos procurarmos, não nos envolvermos fora dali. Seria aquele dia apenas e nada mais. Bom, ele porque criou um trauma de relacionamento a distância depois de tanto ler “Querido John”. E eu por achar que iriamos acabar morrendo envenenados. Ou engasgados de tanto rir dos nossos medos. 

O moço que trabalhava lá e levou nossos pedidos, ficava nos observando, até vir dizer como formávamos um casal bonito. John pegou na minha mão, e apenas concordou. Quando eu ia perguntar para ele o porquê de ter concordado que eramos um casal, ele simplesmente colocou meu cabelo para trás da minha orelha, e me beijou. Eu retribui. Me levantei e fui embora correndo dali. Aquilo não poderia ter acontecido. Nossa ficção estava se tornando real para mim, mas não podia, pois eu estava indo embora no dia seguinte. E fui. 

Era verão de 2010, e cinco anos depois estou voltando aqui. Entrando na biblioteca pra entregar o livro “Querido John” que eu tinha sem querer levado comigo aquele dia. Deu tempo de ler ele várias vezes, e agora se tornou o meu preferido. Eu tinha muito em comum com a Savannah, talvez John tinha visto alguma semelhança com ela. A mesma bibliotecária ainda trabalha aqui. Devolvi o livro pra ela, e não resisti em perguntar qual era o nome verdadeiro daquele garoto. Ela só me entregou a ficha dele sem falar nada. Nos últimos 5 anos, toda semana ele vem renovar a ficha com os dois livros. Procurei o nome dele. 

– O nome dele é John – disse baixinho pra mim mesma. 
– É , eu sempre gostei do meu nome, tanto na vida real, como no livro, como numa histórinha. 
Ouvi a voz dele atrás de mim, e me virei rapidamente. Nos meus lábios se formou um enorme sorriso:
– Prazer, meu nome é Savannah.

Notas Adicionais: Esse post foi para a blogagem coletiva do grupo de interação Daydream. Se quiser participar, é só clicar na imagem! Esse texto foi inspirado no livro Querido John e é muuito importante pra mim, logo contarei no blog o porquê!